UM INSTANTE DE NATAL
Margarida Mascarenhas

A rotina! Nunca dela tivera tanta saudade. Recorda-se de como, ousadamente, repetia que já não a suportava. Que, a pouco e pouco, num dia igual ao outro, se morria. Que era pouco o talento de adivinhar manhãs, tardes e noites…. E assim se demorava, quando num ímpeto se atirou ao chão.
Os braços e as mãos a cobrir a cara e cabeça; o corpo tenso sentado no chão; as pálpebras comprimidas; as mãos fechadas…. Chega! Já chega! Repetia para si cada vez mais baixinho.
A rotina fazia-se agora de episódios fragmentados, estilhaçados e inesperados.
Havia dias em que a saudade apertava tanto que desejava ter partido também, mas logo se convencia do seu amor àquele chão. Em cada amanhecer encontrava - com a alegria de os saber vivos-, outros vizinhos que, como ela, haviam ficado. Como aprenderia ela a amar outra que não a sua terra? Como construiria rotina semelhante à que lhe moldou a resistência? Aconchegou-os a todos, afagou-lhes as cabeças, beijou-os demoradamente, orou por todos e despediu-se de filhos e netos. Ficaria a zelar pela terra que lhes deu vida. Que nunca se esquecessem… Nesse momento, nas memórias de todos, terra e mãe passaram a ser uma só.
Ali estava, naquele rés-do-chão, sem electricidade, sem pouco ou nada que comer, envolta em morte e destruição, no dia em que Jesus chegou ao mundo…
Naquele momento, ao lembrar-se disso, pediu que Deus não os abandonasse…pela fé que todos lhe tinham (habituara-se sempre a falar no plural). Levantou-se, acendeu uma vela e olhou em frente. Subitamente avistou alguém…recuou e, de lá, alguém recuou também; deu dois passos em diante e, ao seu encontro, outros dois foram, igualmente, dados. Oh! Não era a primeira vez que lhe acontecia… tinha mesmo de o tirar dali. Aproximou-se do grande espelho que se mantinha na sala. Sentou-se e, como se de uma janela se tratasse, observou o seu reflexo.
No silêncio da noite, com a luz quente da vela, até lhe parecia acolhedor o espaço que habitava. Pensou nos filhos, nos netos, sorriu com a ideia de outros natais. Deu consigo a sorrir (ainda o conseguia fazer). Lembrou-se do que lhe diziam quando em jovem - O teu sorriso ilumina o espaço. Em cada expressão sua encontrava o rosto de alguém. Ali estavam os seus pais, os seus filhos e os seus netos. Afinal, não estava sozinha.
De um saco tirou um pedaço de pão que, com dentadinhas parcimoniosas, foi subtraindo. Agradeceu a Deus esse instante de Natal. Pediu por todos. E, assim, se deixou embalada em aconchegantes memórias. Uma luz vinda do exterior, porém, invadiu violentamente o espaço… em segundos, voaram estilhaços do seu mundo.
07.01.2023
Margarida
Em resposta ao desafio “os nossos contos de Natal | 2022” , iniciativa de Isabel Silva, do blog Pessoas e Coisas da Vida
